Quem inventou o álcool gel? Foi mesmo Lupe Hérnandez?

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Asseptgel FBI quer saber: quem inventou o álcool em gel? Se você fizer uma pesquisa rápida na internet vai descobrir diversas páginas falando sobre Lupe Hérnandez e sua incrível história como estudante de enfermagem latino-americana.

Lendo os primeiros resultados, reconhecemos que enche o peito de honra ver uma mulher não-branca de um país latino como o nosso, sendo a responsável pelo principal aliado na luta contra o coronavírus.

Mas, como o nosso compromisso é antes de tudo com a verdade – acima até do orgulho -vamos vasculhar essa história bem a fundo para você: foi mesmo Lupe Hérnandez a inventora do álcool gel?

Bora descobrir:

Lupe Hérnandez: a lenda de quem inventou o álcool em gel

Imagine a cena: 1966, em Bakersville, na Califórnia, Lupe Hérnandez uma ainda estudante de enfermagem inconformada com a falta de água e sabão para a higienização antisséptica nos hospitais antes e depois do contato com os pacientes.

Foi então que ela teve a grande ideia: criar uma versão em gel do álcool! Ele seria mais prático, matando microorganismos e evaporando, sem precisar de água.

Há quem diga ainda que, neste ponto, ela já vislumbrava que este produto fosse um sucesso comercial – tanto que, segundo o The Growth and Development of Nurse Leaders, Second Edition tratou de ligar para uma registradora que viu fazendo propaganda na TV e patentear a ideia.

Claro que nesta época Lupe Hérnandez não poderia prever o porque o álcool em gel mata o coronavírus ou, alguns anos atrás seria decisivo também no combate ao H1N1. Também a sua fórmula não teria como ser essa que conhecemos hoje, com hidratantes e clorexidina na fórmula.

Mas ainda assim nada tira o brilho de Lupe Hérnandez na história, sendo reconhecida como quem inventou o álcool em gel…Hoje é só pesquisar pela #Lupehernandez em qualquer mídia social ou que lá terá postagens do mundo todo. Por aqui, até o cartunista Maurício de Souza já fez uma homenagem a ela… ficou demais, né?

Animação criada pela Maurício de Souza Produções com ilustração de Lupe Hérnandez para a séria “#donasdarua”.
Reprodução: Mauricio de Sousa Produções/Divulgação

Mas será mesmo que foi Lupe Hérnandez mesmo quem inventou o álcool em gel?

Foto de laboratório antigo, com aspecto sujo, escuro e vários equipamentos e vidrarias antiuquados e empoeirados.

Bonita essa história de quem inventou o álcool em gel, né? Não só bonita como inspiradora. Mas para quem trabalha com fatos, a tendência é questionar na ausência de fontes confiáveis.

Afinal, como era esse álcool em gel que ela fez? Era como um álcool 70 caseiro? O que tinha nele? Será que a Lupe Hérnandez ficou rica com essa invenção, ganhou algum Nobel?

Perguntas como essas surgem principalmente na falta de informações. A lenda de Lupe Hérnandez está rodeada de furos, porque não existem registros históricos dessa sua invenção tão importante.

Aqui vamos dar um apanhado de tudo o que (não) encontramos sobre a Lupe e o que encontramos sobre patentes do álcool gel. As informações são do Museu Smithsonian, de Nova York, e do Museu de Bakersfield, pela curadora Bethany Rice.

O que sabemos sobre Lupe Hérnandez e a invenção do álcool em gel

Não há registros concretos de que quem inventou o álcool em gel foi Lupe Hérnandez. Ao que tudo indica, tudo começou com uma postagem no jornal The Guardian, de 2012 que contava essa mesma história – linda, mas sem aprofundamento nenhum.

A partir daí todas as matérias que surgiram foram só replicando essa mesma história e referenciando entre si… chegamos a um ciclo onde ninguém tinha a história original.

E para deixar essa história de quem inventou o álcool em gel ainda mais estranha, há ainda outros agravantes:

Não há patente nenhuma em nome de Lupe Hérnandez

Ou nenhuma com um nome próximo do dela como autora do produto. Na mesma época, o que há são experimentos como caixas com álcool onde a pessoa mergulhava as mão para higienização antisséptica das mãos.

Não há, inclusive, registros da própria Lupe Hérnandez

Bethany Rice, que trabalha no Kern County Museum, de Bakersville não encontrou seus registros nem na escola onde ela teria estudado enfermagem e nem no obituário da cidade;

Dan Nosowitz, da Vanity Fair, decidiu ir “direto a fonte” e perguntar para a própria autora do texto do The Guardian, Laura Barton. Foi então que ela disse que não se lembra da fonte onde encontrou essa história, e seus cadernos de anotações estão no Reino Unido, enquanto ela está passando a quarentena na Grécia;

Circulou por aí uma foto de uma “suposta Lupe Hérnandez” em todos os textos sobre quem inventou o álcool em gel. Não vamos reproduzir aqui para não propagar ainda mais essa imagem falsa. Na verdade, essa foto é de uma mulher já falecida que, segundo Leshi Hérnandez (sua filha), nunca foi enfermeira e tinha apenas 13 anos na época da invenção.

Se não a Lupe Hérnandez, quem inventou o álcool em gel?

Não podemos dizer, com certeza, que foi Lupe Hérnandez quem inventou o álcool em gel. Também não podemos ser radicais a ponto de dizer que não foi – por mais que todos os indícios apontem a essa conclusão.

Por hora, o que podemos fazer é seguir os fatos. Vamos fazer como todos canais sérios de informação fazem: ter como verdade o que se tem registrado. E seguindo esse caminho chegamos às Indústria Gojo em outra história bem “americanizada”, no mínimo:

O Purell, das Indústrias Gojo foi o primeiro álcool em gel que se tem registro

Foto de embalagem do álcool em gel Purell em mesa de madeira de uma casa.

Em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1946, o casal Goldie e Jerry Lippman (das iniciais deles que vem o nome “Gojo”) trabalhavam em uma fábrica de borrachas para a fabricação de botes salva-vidas.

Naquela situação eles notaram que os operários tinham muita dificuldade em limpar as mãos de graxa, grafite e carbono, muitas vezes as mergulhando em produtos corrosivos como querosene e benzeno.

O casal então fundou a Gojo, junto a um professor da Kent State University. A empresa chamou seu produto de Purell e ele foi o primeiro álcool em gel comercializado no mundo – sendo lançado em 1997.

Aliás, a Purell não inventou só o álcool gel, mas também o dispenser e o bico dosador, para os quais eles possuem patentes.

É uma história menos bonita que a de que foi Lupe Hérnandez quem inventou o álcool em gel – principalmente depois das últimas polêmicas envolvendo a produção insuficiente para supervalorização do Purell. Mas ainda assim é o que temos de concreto e, como toda história, tem aquele charme da “jornada do herói”.

As primeiras patentes que citam algum uso de álcool em gel

Cortesia do Smithsonian, temos algumas patentes que mostram os primeiros usos de uma solução em gel buscando a higienização das mãos com álcool ou outros produtos. A primeira, inclusive, é de mais de 100 anos atrás.

Dá só uma olhada:

O que tiramos da história de quem inventou o álcool em gel

Foto de casal em mesa estudando em livros e cadernos. A mulher está passando álcool em gel enquanto o homem se mantém concentrado.

Por mais que a nossa veia jornalística fale mais alto e todos os indícios apontem que não foi Lupe Hernández quem inventou o álcool em gel, não podemos garantir isso.

É preciso ainda pensarmos no contexto histórico por trás de tudo isso: uma mulher latina, não-branca, provavelmente de classe mais humilde em plena década de 60, dificilmente não teria a sua contribuição anulada dos registros oficiais na história.

O próprio presidente da Kern County Historical Society afirmou que “Já fiz muita pesquisa na minha vida para saber que você nunca sabe o que vai encontrar”. Afirmando ainda que, após a pandemia vai acessar os arquivos da escola para procurar mais sobre Lupe – assim como a jornalista do The Guardian.

E assim como essas, várias outras possíveis lendas surgem no ar o tempo todo – ainda mais nos tempos das fake news. A diferença é que se tratando do coronavírus, algumas delas, além de contar histórias que talvez não existiram, podem trazer riscos à saúde ou então não serem tão eficazes para matar os vírus quanto se mostram.

Quer um exemplo? Leia o nosso texto que desmistifica as receitas caseiras contra o coronavírus: cuidado que você pode estar sendo enganado!

Até a próxima!

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